Apagão nas Urnas? Descubra o que aconteceu na apuração dos votos
Entenda como funciona o processo de apuração dos votos e o que pode ter causado o apagão nas urnas eletrônicas durante as eleições.
Durante a apuração dos votos no primeiro turno das eleições brasileiras, o site e o aplicativo do Tribunal Superior Eleitoral (TSE) ficaram mais de uma hora sem atualizar os dados. A exibição do resultado ficou simplesmente travada em 64% e, logo após, saltou de maneira brusca para mais de 80%. Muitos ficaram sem entender, e logo surgiram boatos de fraude nas urnas eletrônicas. Uma suposta intervenção estrangeira? Afinal, o que aconteceu nas eleições brasileiras?
No último domingo (4), ocorreu o primeiro turno das eleições nacionais. Milhares de pessoas foram depositar seu voto de confiança em seus candidatos e esperavam, como de costume, o rápido resultado calculado e exibido quase em tempo real graças à nossa tecnologia, que é referência mundial. Nos Estados Unidos, a apuração dos votos leva dias ou, até mesmo, semanas! De acordo com a Secretaria de Estado da Califórnia, nas eleições de 2024, houve uma espera de 38 dias para calcular os votos de 23 milhões de eleitores [1]. No Brasil? Apenas 4 horas para 119,3 milhões [2], recebendo elogios até do presidente estadunidense Donald Trump pela eficiência e confiança [3]. Levaríamos um artigo inteiro apenas dissertando sobre como a urna eletrônica é construída e sobre sua segurança comprovada. Mas, o que aconteceu com essa tecnologia tão cobiçada justo em uma eleição tão fervorosa?
A urna não tem acesso à internet global. Segundo o detalhamento oficial do próprio TSE, os votos são gravados de forma criptografada em uma mídia física (uma espécie de pendrive superseguro) [4]. Essa mídia é então escoltada até um local autorizado e inserida em uma rede interna privada (VPN) exclusiva da Justiça Eleitoral. Isso já responde parcialmente à nossa maior dúvida: não, os milhões de acessos do público para saber o resultado não passam pela mesma camada de rede que recebe os votos! Pense nisso como um grande restaurante. A apuração dos votos acontece na cozinha (um ambiente fechado, seguro e focado apenas em preparar os pratos). Já o site e o app do TSE são o salão de clientes. A cozinha nunca parou de trabalhar e de enviar os pratos; o que aconteceu foi que o salão lotou subitamente com milhões de clientes gritando ao mesmo tempo para ver o cardápio, sobrecarregando os garçons. O fluxo da cozinha (apuração) seguiu intacto.
Com isso, é correto afirmar que nunca houve um “apagão” na apuração, o sistema esteve recebendo atualizações a cada segundo. No próprio app do TSE, era possível notar isso. Na página inicial, que mostrava o resultado calculado para cada candidato, houve o travamento em 64% das urnas apuradas. Porém, se você navegasse para a aba de “Resumo”, o sistema já exibia 80%. Outros sites que também mostravam a apuração continuavam sendo alimentados pelos dados públicos do TSE. Então, o que ocorreu de fato?
A lentidão estava nas plataformas públicas do próprio Tribunal. Com milhões de acessos simultâneos, é necessária uma infraestrutura pesada de nuvem e processamento de dados. Esse é um desafio recorrente para sites governamentais. Um grande exemplo é o resultado do Enem: milhões de estudantes acessam o SISU freneticamente para matar a ansiedade, gerando lentidão por horas, sendo possível ver o resultado, muitas vezes, somente no dia seguinte.
Resumidamente, o problema não estava na apuração dos votos, até porque a camada onde isso ocorre não é pública (justamente por questões de segurança do sistema). O travamento estava na exibição desses dados, especificamente nas plataformas digitais do TSE. Outros sites estavam recebendo e calculando os votos quase em tempo real. É fundamental separar as coisas: a lentidão em um site por milhões de acessos é um problema de infraestrutura de internet, não uma falha de segurança eleitoral. O “apagão” foi apenas na vitrine. Nos bastidores, a arquitetura de segurança continuou contando voto a voto, provando por que o sistema brasileiro segue sendo um dos mais rápidos e confiáveis do mundo.
Fontes
[1] California Secretary of State - Vote Counting Process
[2] G1 - Eleição presidencial em 2026 registra 119,3 milhões de votos válidos
[3] CNN Brasil - Trump elogia rapidez da apuração nas eleições do Brasil em rede social
[4] Senado Federal - Urna eletrônica: veja como funciona e como o voto é protegido